A casinha
ou uma autoconfiança que ainda vai me matar
O sonho: estou em um lugar com muitas pessoas. Uma feira? Há algo relacionado à venda de comida. A amiga que decidiu se afastar conversa comigo no tom constrangido usual dela. Fico incomodada. Ela menciona a participação de uma amiga minha no evento de uma forma pejorativa. O comentário me incomoda e penso: “claro que ela está envolvida, por que não se envolveria?”. A amiga que decidiu se afastar fica perto, mas de forma que deixa dúvidas se ela está comigo. Dou um passo pra trás. Encontro meu marido. Ela fala com ele, que responde sem entusiasmo. Ela se afasta.
O projeto: há tempos me incomodava o estado da casinha da Lila. Quando eu mandei fazê-la, avisei ao marceneiro que ela ficaria no tempo. Já entendi que esse marceneiro se faz de sonso. A casinha ficou feia, com manchas escuras. Eu não tinha tempo de lidar com ela. Mas as férias e a decisão de fazer coisas que me deixam contente confluíram e eu tinha tinta, corantes e muita autoconfiança. Eu não precisava perguntar como a Lila gostaria que a casinha fosse pintada porque esse é o tipo de desenho que ela faz:
Não pesquisei como se fazia. Organizei uma pequena estação de trabalho e fui no free-style. O resultado é que passei muito tempo encarapitada em cima de uma escada.
Fazer as coisas: meu barulho preferido quando faço coisas é nenhum. Eu só penso. Também penso quando não faço nada, mas hoje em dia, acho mais difícil fazer nada. Quando eu era criança, eu era especialista nisso. Gostava de ficar sozinha e gostava de fazer nada. E eu pensava. Sendo professora, quando trabalho, penso, mas não sobre mim. Sendo analista, não penso. Fazendo essas coisas que invento, penso sobre a vida. Quando minha amiga decidiu se afastar, os pensamentos foram difíceis e foram muitas as noites em que custei a pegar no sono. Quando eu era criança, custar a dormir por conta dos pensamentos obsessivos era regra.
Minha casinha: caí nessa gaveta da memória. Eu não tinha uma casinha no quintal. Mas tinha um pequeno pedaço da casa do qual me adonei. Não lembro como foi o processo de usucapião, só sei que quando ganhei uma mesinha com quatro cadeiras, esse espaço no sótão virou o lugar dela, junto do armarinho e das minhas sete bonecas, cada uma com seu berço fabricado por mim às custas de roupas, caixas, cestos e panos que eu achava pelo caminho. Esse sótão é um lugar importante da casa dos meus pais. Tinha um ar de caça ao tesouro, acumulação e depósito de coisas importantes dos trabalhos do meu pai. Ali era o escritório dele, mas também tinha uma salinha de TV, um quarto de visitas, a minha casa de bonecas e um acesso à caixa d’água. Não sei porque escrevi no passado, pois com exceção da casinha, tudo continua mais ou menos igual. Nessa época, em minha dificuldade infantil para pegar no sono, por vezes eu levantava, sobretudo no inverno, para colocar as bonecas na cama. O pensamento era: “se eu não cobri-las, elas não vão mais me amar”.
Amar: passei muito tempo no topo da escada pintando o teto da casinha, que é feito de madeira naval. A madeira naval é muito porosa e eu não sabia que eu precisava passar um fundo antes de passar a tinta. O resultado é que passei muitas horas nesse telhado. Dois dias e meio para ser mais exata. E mais da metade da minha lata de 3,6 litros de tinta. Por alguma razão, a cada demão eu apostava que seria a última, bastava eu fazer aquilo com cuidado. Então, eu passava pincel e depois o rolo com o maior zelo possível. Enquanto fazia isso, pensei muito sobre o sonho, em que cada personagem encena um pedaço de mim ou uma fração da minha interpretação sobre aquilo. Me senti muito injustiçada quando minha amiga se afastou e fui acolhida nesse sentimento. Foi preciso falar muito sobre isso para ele descolar de mim. Um dia a Lila me perguntou se o amor acaba. Eu disse que alguns sim. Ela tem 4 anos e já sofreu rejeições e há vezes em que nada pode ser feito a respeito.
O vendedor de tintas: depois de concluir que não havia mais jeito, cheguei à loja de tintas me sentindo Riobaldo. Para que o moço conseguisse me ajudar, eu precisava contar a história da minha empreitada com a casinha do começo. Não falei tudo isso que escrevi aqui, mas poderia. Cheguei no balcão, entreguei à Lila um catálogo de amostras de tintas pra ela não atrapalhar a conversa e disse: “Moço, eu decidi fazer uma coisa sem perguntar pra ninguém. Eu sempre faço isso porque parto do princípio de que sei fazer. O resultado é que estou há 3 dias pintando um telhado, minha tinta acabando e minha esperança de conseguir acabar se esvaindo”. Juro. Ele riu. Me pediu pra eu explicar. Mostrei fotos. Ele falou sobre o fundo, sobre que não se dilui tinta com thinner - que não é a mesma coisa que aguaras - e então disse:
“Depois que você passar o fundo, tem que esperar pelo menos 12 horas pra curar”.
“Curar?”
“Secar, dona. O fundo precisa estar curado pra passar a tinta”
“E o que eu faço?”
“Passa o fundo e espera, para curar não pode ter pressa, depende de muitos fatores. Esse fundo vai curar rapidinho porque o tempo tá bom. Também não pode passar grosso, tem que diluir. Você vai ver que agora vai dar certo”
Deu certo. Terminei a casinha, fiz persianas com uma toalha de plástico em metro que a Lila gostou porque tem corações. Fomos à floricultura e ela escolheu cravos. Não seria a minha escolha, mas a casinha é dela (é preciso lembrar). Plantamos juntas.
Sobre o tempo de cura, lembrei que em A mulher desiludida (Simone de Beauvoir), tem uma frase que é a única coisa que eu já quis tatuar na vida [mas muito grande pra tatuar]: “É preciso esperar que o açúcar derreta, que o sol se ponha, que o ódio se dissipe”.* O que ela carrega consigo é que as coisas precisam de paciência para curar.
*A frase não é exatamente assim, mas foi assim que eu lembrei dela



